Obesidade não é questão estética nem tem solução rápida, alerta especialista
A obesidade, cada vez mais presente na sociedade, não se resume a aparência, exige acompanhamento contínuo, estratégias personalizadas, e medicamentos como “canetinhas” não servem para qualquer pessoa que deseja perder alguns quilos. A orientação é do especialista em cirurgia bariátrica, digestiva e geral, Dr. Marco Antonio Bráulio Elosta, que atua no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS).
A obesidade é reconhecida como doença crônica, complexa e de múltiplas causas. Por isso, segundo o especialista, não pode ser atribuída simplesmente à falta de força de vontade nem tratada de forma padronizada. “A indicação de qualquer recurso — seja medicamento, mudança de hábitos ou cirurgia — depende do perfil clínico de cada pessoa”, destaca.
“Canetinhas” têm critérios rígidos de uso
Os fármacos do grupo dos análogos do GLP-1 e medicamentos com mecanismo semelhante ganharam repercussão ampla, mas não são destinados à perda de peso por motivo estético. A inclusão deles no tratamento depende do grau da obesidade, da presença de doenças associadas, do histórico clínico e dos objetivos terapêuticos definidos em consulta.
O uso não é isento de riscos: náuseas, vômitos, diarreia e prisão de ventre estão entre os efeitos adversos mais comuns. Há também eventos mais graves, embora menos frequentes, além de contraindicações específicas. Outro alerta fundamental é a recuperação de peso que pode ocorrer após a interrupção do tratamento. Por isso, iniciar, ajustar ou suspender a medicação por conta própria é perigoso e não deve ser feito.
O tratamento medicamentoso, quando indicado, nunca funciona isoladamente: deve vir acompanhado de mudanças na alimentação, prática de atividade física orientada e suporte profissional.
Abordagem é ampla e individualizada
A estratégia terapêutica é construída sob medida para cada paciente, levando em conta desde a distribuição da gordura corporal e doenças relacionadas até hábitos, rotina, necessidades nutricionais e fatores psicológicos. O foco não é aderir a dietas restritivas passageiras, mas formar padrões saudáveis que possam ser mantidos ao longo da vida.
O acompanhamento psicológico e comportamental tem papel central, ajudando a lidar com fatores emocionais ligados à alimentação, estresse, ansiedade e questões relacionadas à imagem corporal. Já a atividade física deve ser adaptada à capacidade de cada um, trazendo benefícios que vão além da balança — para o coração, o metabolismo e as articulações.
Cirurgia bariátrica: ferramenta, não atalho
Nos casos mais graves ou quando a obesidade vem acompanhada de outras doenças, a cirurgia bariátrica pode ser indicada. No Sistema Único de Saúde (SUS), o procedimento segue critérios definidos e integra uma linha de cuidado completa, com avaliações antes e depois da intervenção. Longe de ser um caminho fácil, exige dedicação contínua e transformações permanentes de rotina.
Doença atinge corpo inteiro e exige cuidado de longo prazo
A obesidade pode comprometer quase todos os sistemas do organismo, elevando o risco de hipertensão, diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares, apneia do sono, doenças do fígado, alterações articulares e até alguns tipos de câncer. Além dos efeitos físicos, pode gerar sofrimento psicológico, estigma e discriminação.
Por isso, o número registrado na balança não é o único — nem o principal — objetivo. Mesmo uma perda de peso moderada pode trazer ganhos expressivos à saúde, como controle melhor da pressão arterial e da glicemia.
O especialista reforça que não existe solução universal, rápida ou definitiva. Dietas extremas, remédios sem receita ou uso de medicamentos indicados a outras pessoas trazem riscos e ignoram a individualidade de cada quadro. “O mais seguro é buscar avaliação profissional para entender se há indicação de tratamento, quais metas são possíveis e qual estratégia oferece mais benefícios do que riscos para você”, orienta.
Cuidar da obesidade é, antes de tudo, cuidar da saúde de forma integral e duradoura — sem atalhos, sem reducionismo e com olhar voltado para a qualidade de vida.
