Sem favorito isolado, Lula e Flávio Bolsonaro concentram disputa presidencial na reta final
Às vésperas do primeiro turno das eleições de 2026, a disputa pela Presidência segue marcada pela proximidade entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Os levantamentos mais recentes mostram variações na vantagem de cada candidato, mas, nos cenários de segundo turno, os dois aparecem em situação de empate técnico.
A situação foi analisada na noite de quarta-feira (30), durante uma edição especial de “O Grande Debate Eleições 2026”, da CNN Brasil, que reuniu representantes de institutos de pesquisa para discutir o comportamento do eleitor na reta final da campanha.
Pesquisas mostram disputa apertada
No primeiro turno, os números variam conforme o instituto e a metodologia utilizada. O Meio/Ideia, por exemplo, registrou Lula com 39,4% e Flávio Bolsonaro com 38,4%, diferença dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais. No segundo turno, o levantamento mostrou 48,5% para Lula e 48% para Flávio.
Já levantamento Nexus/BTG divulgado em 28 de setembro apontou Lula com 42% e Flávio com 37% no primeiro turno. Em uma eventual segunda etapa, os números foram de 46% a 44%, também dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
O Datafolha divulgado em 24 de setembro registrou Lula com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno. Para o segundo turno, o instituto apontou 47% para Lula e 45% para Flávio, em empate técnico. Uma nova pesquisa do Datafolha estava prevista para ser divulgada nesta quinta-feira (1º).
Um agregador do UOL, considerando pesquisas de 20 institutos, apontava, até o fim de setembro, Lula com 39,6% e Flávio Bolsonaro com 35,5% no primeiro turno. Augusto Cury aparecia em terceiro, com 6,1%, seguido por Ronaldo Caiado, com 3,7%, e Renan Santos, com 3,6%.
Renda e região dividem o eleitorado
Além da disputa nacional, os levantamentos identificam diferenças importantes no comportamento do eleitor conforme renda e região.
Lula apresenta desempenho mais forte entre eleitores de menor renda, enquanto Flávio Bolsonaro registra vantagem em parcelas de renda mais elevada em alguns levantamentos. Regionalmente, o Nordeste permanece como uma das principais áreas de vantagem de Lula, enquanto o candidato do PL apresenta desempenho mais forte em estados do Sul e em parte do Centro-Oeste.
Os dados, porém, variam entre os institutos, especialmente no Sudeste e no Centro-Oeste. Em estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro, levantamentos recentes registraram situações de empate técnico.
Voto útil pode alterar cenário
Para Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest, três fatores podem influenciar os últimos dias antes da votação: a migração de votos de candidatos que aparecem atrás nas pesquisas, as informações e debates da reta final e o nível de comparecimento às urnas.
Entre os candidatos que podem perder eleitores para os dois nomes mais competitivos estão Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
Segundo Russo, o comportamento do eleitor no domingo será especialmente relevante porque a participação efetiva só poderá ser medida de forma completa depois da votação.
A possibilidade de migração de votos também é apontada por Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia. Segundo ela, os dados recentes indicam volatilidade entre parte do eleitorado, com candidatos de menor intenção de voto podendo perder apoio na reta final.
Eleitorado indeciso e abstenção entram no cálculo
Outro ponto discutido pelos analistas foi a parcela do eleitorado que ainda não havia definido o voto.
Bruno Soller, analista e sócio do Real Time Big Data, afirmou que entre 12% e 13% dos eleitores ainda não tinham uma escolha definida em levantamento interno da empresa. Ele também avaliou que a abstenção poderá ser um dos elementos importantes do resultado.
A discussão sobre comparecimento ganha peso porque, em uma eleição marcada pela proximidade entre os dois principais candidatos, diferenças relativamente pequenas na participação de determinados grupos podem alterar a composição dos votos válidos.
Avaliação do governo é um dos fatores da disputa
A avaliação da gestão Lula também aparece entre os elementos observados pelos institutos. Segundo dados apresentados por Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, 49% desaprovavam o governo e 46% aprovavam no levantamento citado durante o debate.
Pesquisa Datafolha realizada em 22 e 23 de setembro encontrou 40% de avaliação negativa do governo, 34% positiva e 24% regular. A aprovação pessoal de Lula estava em 47%, enquanto 50% disseram desaprová-lo.
Tokarski chamou atenção para um grupo de eleitores que demonstra insatisfação com o governo, mas que, segundo sua análise, ainda não declara intenção de voto em Flávio Bolsonaro. Esse segmento, de acordo com ele, tende a reunir pessoas com maior escolaridade, de classe média e residentes em grandes centros urbanos.
Campanha chega à reta final com polarização
Para os analistas que participaram do debate, a eleição também apresenta forte componente de rejeição aos adversários. Soller afirmou que parte dos eleitores estaria escolhendo entre os dois principais candidatos mais pela intenção de impedir a vitória do outro do que por identificação positiva.
Esse comportamento se soma à possibilidade de transferência de votos de candidatos que aparecem em posições inferiores nas pesquisas, fenômeno que costuma ganhar força na proximidade da votação.
Yuri Sanches, head de análise política da Atlas/Intel, também discutiu a dificuldade do governo em ampliar sua aprovação durante a campanha. Na avaliação apresentada por ele, Lula chegou à disputa com níveis de rejeição já consolidados.
Sanches citou ainda a eleição de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro por uma diferença de 1,8 ponto percentual no segundo turno, e afirmou que parte do eleitorado que apoiou o petista naquela ocasião tinha como principal motivação a rejeição ao adversário.
Ele também argumentou que medidas anunciadas pelo governo durante o mandato não necessariamente se transformaram em apoio eleitoral. Como exemplo, citou a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e observou que parte dos efeitos financeiros da medida será percebida pelos contribuintes somente posteriormente.
Com três dias para o primeiro turno, os levantamentos disponíveis mostram, portanto, uma corrida presidencial concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro, com diferenças que variam entre os institutos e um segundo turno dentro da margem de erro em diversas pesquisas. A votação está marcada para domingo (4).
