Com desemprego no menor nível, MS mira salários maiores e mão de obra qualificada
Para quem busca o primeiro emprego, tenta deixar a informalidade ou precisa aprender uma nova função, uma vaga disponível é apenas o começo. O trabalho muda de valor quando oferece renda capaz de sustentar a família, perspectiva de crescimento e condições para acompanhar uma economia em transformação. É nesse ponto que o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, situa uma das prioridades do próximo ciclo de Mato Grosso do Sul: avançar do emprego quase pleno para oportunidades mais qualificadas e mais bem remuneradas.
A proposta parte de um cenário em que a baixa desocupação já alterou a natureza do desafio. Em vez de concentrar a política apenas na abertura de postos, o Plano de Governo 2027–2030 busca aproximar formação profissional e demanda das empresas, reter talentos, preparar trabalhadores para novas tecnologias e ampliar a inclusão produtiva em todas as regiões.
A ideia defendida por Riedel é fazer com que o crescimento econômico se traduza não somente em mais vagas, mas em trajetórias profissionais capazes de elevar a renda.
Emprego em alta, renda em movimento
Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com taxa anual de desocupação de 3%, a menor da série histórica estadual. No quarto trimestre, o índice recuou para 2,4%, permanecendo entre os menores do país. No primeiro trimestre de 2026, mesmo com a alta sazonal registrada em diferentes estados, Mato Grosso do Sul teria continuado abaixo da média brasileira.
Esse ambiente foi acompanhado pela criação de mais de 19 mil empregos formais no último período anual citado, distribuídos entre construção, serviços, indústria, comércio e agropecuária. A renda média cresceu 64% entre 2021 e 2025, e 80% desse ganho veio de rendimentos do trabalho. Em outro recorte, com base de comparação em 2019, houve aumento de 37,6%.
Na vida cotidiana, esses números representam uma mudança importante: mais pessoas entraram no mercado ou encontraram meios de empreender. Mas o novo patamar não resolve sozinho a realidade dos empregos de baixos salários. Quando a desocupação se aproxima do piso histórico, a pergunta deixa de ser apenas quantas vagas existem e passa a incluir que tipo de trabalho está sendo criado, quanto ele paga e quais caminhos oferece para a progressão profissional.
A resposta construída entre 2023 e 2026 combinou intermediação de mão de obra, articulação com o setor produtivo e programas de formação. Mais de 500 mil qualificações foram realizadas em três anos, alinhadas às cadeias produtivas consideradas estratégicas. No mesmo período, a Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul foi modernizada, alcançou os 79 municípios e passou a operar, segundo o plano, como uma central de inteligência do trabalho.
Formação precisa acompanhar a economia
A presença territorial da Funtrab aproxima vagas e trabalhadores, mas a transformação econômica exige uma ligação mais fina entre aquilo que as empresas procuram e aquilo que as pessoas conseguem oferecer. Novas atividades industriais, serviços tecnológicos, logística, bioenergia, agroindustrialização e processos produtivos cada vez mais digitais ampliam a procura por competências específicas. Sem formação compatível, uma economia pode conviver ao mesmo tempo com baixa desocupação, vagas difíceis de preencher e trabalhadores presos a ocupações de menor remuneração.
O Plano de Governo identifica essa distância como um dos gargalos da próxima etapa. A estratégia é conectar governo, empresas e instituições de ensino, integrar a formação profissional à atração de investimentos e estimular cursos voltados aos setores estratégicos. Na educação, a proposta também prevê fortalecer o ensino profissional de acordo com as vocações econômicas regionais, fazendo da escola e da qualificação continuada pontes para as oportunidades abertas em diferentes partes do Estado.
Essa articulação inclui pessoas que enfrentam barreiras maiores para ingressar ou permanecer no mercado. O plano prevê fortalecer políticas de empregabilidade para jovens e grupos em situação de vulnerabilidade, integrar assistência social, qualificação e encaminhamento ao emprego e expandir programas de inclusão produtiva e empreendedorismo. Para pessoas com deficiência, outra frente do documento estabelece a criação de um Programa de Emprego Apoiado com pelo menos mil vagas.
Para Riedel, o próximo mandato deverá aproximar crescimento e mobilidade profissional. Isso significa preparar quem procura o primeiro trabalho, apoiar quem precisa mudar de função e oferecer requalificação a trabalhadores cujas atividades serão alteradas pela tecnologia. A retenção e a atração de talentos entram nessa lógica: o Estado pretende formar profissionais para as novas demandas e criar condições para que permaneçam em Mato Grosso do Sul, contribuindo para a expansão das cadeias produtivas locais.
Metas para motoristas e desenvolvedores
Entre as propostas mais objetivas para 2027–2030 está a ampliação do Voucher Transportador. O plano prevê dobrar os recursos destinados ao programa e alcançar pelo menos 5 mil pessoas habilitadas nas categorias D e E até 2030. A medida procura responder à demanda por condutores profissionais e reduzir a distância entre quem busca uma ocupação e os custos necessários para obter a habilitação exigida.
Na área de tecnologia, o compromisso é ampliar os recursos do Voucher Desenvolvedor para formar pelo menos 400 novos desenvolvedores até 2030. A meta se conecta à intenção de estimular inteligência artificial e tecnologias emergentes nos setores produtivos, ampliar a pesquisa aplicada e aproximar universidades, centros de pesquisa, empresas e governo. Mais do que criar uma turma especializada, a proposta tenta formar mão de obra para uma economia em que inovação e produtividade terão peso crescente.
O plano também prevê incentivar programas de requalificação para novas tecnologias, fortalecer a intermediação entre trabalhadores e empresas e estimular a formação voltada aos setores estratégicos.
Para os catadores, a proposta é criar, em articulação com a assistência social, um eixo de formalização e operacionalização de cooperativas, com formação e remuneração dos trabalhadores. Nesse caso, qualificação, organização produtiva e renda aparecem reunidas numa mesma política.
Essas ações dão conteúdo concreto à ideia de elevar a qualidade do emprego. Para um trabalhador, aprender uma nova atividade pode significar atravessar a fronteira entre uma ocupação instável e uma carreira com perspectiva. Para uma empresa, encontrar profissionais preparados pode definir a capacidade de ampliar a produção. Para o Estado, aproximar as duas pontas é uma forma de evitar que os investimentos avancem sem produzir oportunidades acessíveis à população local.
O trabalho ainda precisa ganhar valor
“A baixa taxa de desocupação mostra que Mato Grosso do Sul conseguiu ampliar o acesso ao trabalho; o desafio agora é fazer com que essa inserção venha acompanhada por produtividade, qualificação e renda crescente”, reflete Riedel. O Plano de Governo coloca a realidade dos baixos salários no centro do diagnóstico e propõe enfrentar o problema sem separar emprego, educação, assistência social, inovação e desenvolvimento econômico.
A aposta do governador para o próximo ciclo é transformar uma rede já expandida em um sistema mais preciso: formação conectada às vocações de cada região, intermediação capaz de antecipar demandas, apoio a públicos vulneráveis e metas voltadas a profissões nas quais o Estado identifica necessidade de trabalhadores. O resultado pretendido não se limita a preencher vagas. “Ele envolve criar condições para que as pessoas avancem dentro do mercado, atualizem conhecimentos e participem das novas atividades econômicas”, afirma Riedel.
Para quem começa a vida profissional, deixa a informalidade ou percebe sua função mudar diante de máquinas, dados e novas tecnologias, o sentido dessa política estará menos nas estatísticas gerais e mais na possibilidade de construir um caminho duradouro. O emprego quase pleno abre uma porta. A proposta para 2027–2030 é fazer com que, do outro lado dela, existam qualificação, renda e futuro profissional.
